Qual o valor do uso de espécies selvagens de batata no melhoramento genético dessa cultura?

Este artigo foi originalmente escrito pela Profa. Shelley Jansky (veja detalhes abaixo) e originalmente publicado no “The Sustainable, Food Secure Blog ” (aqui ). Republicado na revista Potato News Today.

Traduzido por Dr. José Alberto Caram de Souza Dias (*) com permissão do autor e do editor (em 29 de Junho de 2020)

Você pode ficar surpreso em saber que batatas, mais conhecidas entre nós como “batatinhas” (Solanum tuberosum)  crescem naturalmente e livremente, como “mato” na América do Sul (regiões montanhosas dos Andes, que iniciam no Chile). Enquanto agricultores nos Estados Unidos  combatem  matos, principalmente espécies de amarantos, quenopódio,  agricultores nas Montanhas dos Andes têm que manter observação e monitoramento nos “matos” de espécies de  batata. Essas espécies selvagens (parentes) das nossas batatas, crescem em áreas cultivadas e ao longo das rodovias, bem como nas florestas e pastagens, Essas plantas são encontradas nas mais diversas regiões, que vão desde praias dos oceanos aos picos das montanhas.  Algumas crescem até dentro do nó de tronco de árvores de carvalho..  

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Essas plantas selvagens de batata crescem na encosta de uma montanha nos Andes. Usando material genético dessas espécies que são “parentes” das plantas de batata cultivadas, pode-se desenvolver variedades resistentes a doenças e até características relacionadas a coloração da casca, polpa e sabor. (foto de Shelley Jansky). 

Como vocês imaginam, essas plantas selvagens se batata têm que de desenvolver em condições ambientais muito  estressante, sem adição de fertilizantes, irrigação ou aplicação de defensivos. Assim sendo, estas espécies selvagens são ricas em genes que são úteis para melhoramento da batata, especialmente no desenvolvimento de tolerância ao estresse. Os melhoristas, geralmente se referem a essas espécies nativas, semelhantes a mato, como “parentes selvagens.”  Colecionar e preservar essa diversidade genética é de crucial importância para o atual sistema de abastecimento de alimento.  .

Nos  Andes, os habitantes dos vilarejos, comem batata diariamente. como parte da dieta local. Eles selecionaram variedades por sabor, consistência da polpa e qualidade (aptidão) culinária. As espécies selvagens cultivadas são importantes para os melhoristas. Essas “raças” de origem local (nativas do vilarejo) possuem genes valiosos para características culinárias.

O Banco Norte Americano de Germoplasma  da Batata (The US Gene Bank) localizado na cidade de Sturgeon Bay, no Estado de Wisconsin, mantém uma ampla coleção de espécie de batata cultivada e selvagem. O trabalho da Profa. Shelley Jansky é o de encontrar e selecionar genes úteis nesse banco de germoplasma e levá-los para o grupo de batata cultivadas, de forma que os melhoristas possam transferir e integrar esses genes nos programas de desenvolvimento de novas variedades de  batata.

A espécie selvagem favorita da Profa Shelley é a Solanum chacoense, que cobre todo o solo da região de Chaco, província do Norte da Argentina. E uma das espécies selvagens mais amplamente adaptada e tem sido coletada extensivamente por cientistas do mundo todo,

Plantas da espécie S. chacoenses carregam um  grande grupo de genes de interesse aos melhoristas de batata. Um clone do programa da Profa Shelley, denominado C545, tem S. chacoense como avó materna. Outra espécie de batata selvagem é a S. berthautii que é avó paterno do clone C455, o qual tem resistência a muitas doenças importantes da batata, incluindo as doenças denominadas murcha de Verticilium;   mosaico Y (Potato virus Y – PVY);  podridão mole (bactéria); sarna comum (Streptomyces scabies , que é um tipo de bactéria)  e pinta preta (Alternaria solanacearum , fungo).

A espécie selvagem de batata Solanum berthaultii é outra de importância para os melhoristas. É encontrada em florestas e encostas de morros que vão desde o sul da Bolivia até noroeste da Argentina. Essa espécie tem seu nome científico em honra ao Agrônomo Frances Piere Berthault. A principal característica, marcante de S.berthautii é a pilosidade grossa que possui nas folhas.

Por essa razão da volumosa pilosidade nas folhas, essa espécie tem seu uso no melhoramento como fonte de resistência a insetos. As variedades “Prince Hairy” e King Harry”, são duas distintas variedades de batata com genes de resistência a insetos, transferidos da S. berthaultii. Enquanto é típico de espécies selvagens de batata a produção de tubérculos pequenos (tamanho de moeda de 10 centavos), grandes e bonitos tubérculos são produzidos por plantas hibridas de espécie cultivada e S. berthaultii. 

A linhagem de melhoramento identificada como C287, é a que tem  maior resistência à doença denominada “murcha de Veticillium”, contêm genes de  S. berthaultii como avós dos dois lados de seu “pedigree”. Quando profa. Shelley estava ainda na faculdade (há poucas décadas) ela criou e selecionou dois clones que ela denominou S438 e S440. Essas seleções têm S. berthaultii  como avós e tem sido utilizada intensivamente como fonte para qualidade de processamento no desenvolvimento de novas variedades de batata.

Variedades selvagens também contribuem com genes para características relacionadas à aptidão culinária. S. chacoense é bisavó da cultivar denominada Lenape, a qual tem o mérito de ter servido de base para a desenvolvimento de cultivares usados no processamento de batata frita (tipo chips).

Um tipo de cultivar Sul Americano  de batata (crioula) é vulgarmente conhecida como Phureja. Essas raças crioulas têm uma diversidade incrível quanto às caracteristicas dos tubérculos, tal como cor da pele, cor da polpa, formato, tamanho e profundidade dos olhos. Algumas seleções de  Phureja produzem tubérculos com polpa de cor amarelo intenso. A cultivar de batata Yocon Gold tem Phureja como um dos avós.

Variedades de batata derivadas de Phureja, na América do Sul, tem sido selecionada por produtores, não apenas por suas distintas características de tubérculos, mas também pelas qualidades culinárias. No programa de melhoramento da Profa Shelley as melhores fontes de genes para melhoramento em busca de sabor, tem sido encontrado em espécies de Phureja, a qual produz tubérculos que são mais saborosos, cremosos e picante do que as variedades padrão. Para aqueles cozinheiros(as) apreçados, é interessante saber que algumas variedades Phureja cozinham em metade do tempo normal necessário para batata cozida.

Existem mais de 100 espécies selvagens de batata e os melhoristas têm apenas “arranhado a superfície” na busca do desenvolvimento de novas variedades. As mudanças climáticas e o aumento da população adicionam desafios adicionais aos produtores de batata, com isso os trabalhos devem continuar a explorar as possibilidades oferecidas por essa riqueza de recursos genéticos.

Autor: Shelley Jansky, Pesquisadora Geneticista, USADA-ARS e Professora da Universidade de Wisconsin-Madison

Para conhecer  mais sobre os trabalhos da  Profa, Jansky, visite esta pagina

Para saber mais sobre espécies selvagens parentes de cultivadas – Crop Wild Relatives), visite esta pagina.

(*) Tradutor: José Alberto Caram de Souza-Dias , Pesquisador Científico/Virologista (Eng Agronomo, PhD) Centro de P&D Fitossanidade, Instituto Agronômico de Campinas (IAC)/APTA/SAA-SP.   (e-mail: [email protected]; [email protected]  ). Para mais informações do tradutor,  visite a pagina:  https://carambatatasemvirus.blogspot.com.br

Lukie Pieterse, Editor and Publisher of Potato News Today

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